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Os equipamentos âncoras do urbanismo social já estiveram aqui antes. Mas por que deram errado?



Sempre que leio sobre os feitos que urbanistas colombianos fizeram em Medellín, me pego pensando no que pode ter dado errado aqui no Brasil, para não fazermos igual ou até mesmo melhor do que os nossos vizinhos.


O que pode ter sido feito diferente lá, que transformou a cidade colombiana na mais inovadora, deixando de ser a mais letal? Esta é a pergunta que todo urbanista social se faz ou deveria fazer. Isso, porque foi através da visita da equipe técnica colombiana às obras do programa de desenvolvimento urbano de favelas cariocas, o Favela Bairro, que inspirou a criação do urbanismo social em Medellín.


Criado em 1994, o Favela Bairro tinha como nome oficial Programa de Urbanização de Assentamentos Populares do Rio de Janeiro - PROAP-Rio. Foi um dos projetos de urbanização de favelas mais promissores que já se viu, ele vigorou dos anos 1994 ao anos 2000. Eu já falei sobre ele em outro artigo. Mas o ponto importante aqui é que uma das premissas do programa era urbanizar as favelas e conectá-las aos bairros e aos serviços sociais públicos.


Anos antes do Favela Bairro, um projeto que prometia revolucionar a educação pública no Brasil, eram os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPS), carinhosamente apelidados de "brizolão" por serem lançados e implantados durante o governo Leonel Brizola (1983 – 1987 e 1991 – 1994). Mas, o que poucos sabem é que o projeto tinha autoria do antropólogo Darcy Ribeiro.

Fonte: https://cronologiadourbanismo.ufba.br/apresentacao.php?idVerbete=1149


E o projeto arquitetônico era assinado por nada mais, nada menos que Oscar Niemeyer, construído por estruturas pré-moldadas que garantiam celeridade e economia na construção dos equipamentos. Que tinham três pavimentos e continham além das salas de aula, um centro médico, cozinha, refeitório, banheiros, áreas de apoio, recreação, ginásio esportivo. Além de outro edifício que receberia a biblioteca e dormitório.


Nascia ali, um dos primeiros conceitos de equipamento âncora difundidos pela metodologia de urbanismo social, isso nos anos 1980. Com a proposta de ensino integral e conectada a serviços sociais públicos, os CIEPs foram espalhados em praticamente todas as áreas vulneráveis do estado fluminense e logo ganhou o Brasil.


Indo mais a fundo, ou melhor, voltando alguns anos, especificamente entre os anos 1950 e 1960, no bairro imperial de São Cristóvão, na capital fluminense, entre a CADEG e o estádio São Januário foi construído o Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Morais, popularmente conhecido como "Pedregulho" que tinha como proposta aproximar a moradia popular à cidade e integrá-la aos serviços públicos.



Foto: Jornal Extra


Com seus pilotis e cobogós, o complexo edilício "Pedregulho" pode ser visto por que transita pela Avenida Brasil, ou viaja no ramal Pavuna-Botafogo, nas composições do MetrôRio. Onde, além de habitação popular, também teve como proposta levar os serviços sociais até o moradores.


Essas foram algumas de muitas outras propostas de aproximar moradia do local de trabalho e dos serviços sociais, assim como fizeram em Medellín. Mas a nossa memória seletiva nos faz esquecer tais projetos e pensar nos benefícios e malefícios que trouxeram à população de interesse e a cidade. Essa falta de memória é que nos exauri em criar projetos que não tenham perenidade.


Mas, você deve estar se perguntando: o que poderia ser feito diferente?


Eu ainda não tenho essa resposta, mas tenho algumas hipóteses. E como toda hipótese, estas precisam ser validadas. Porém, um dos fatores que entendo que pode ter influenciado no insucesso dos projetos é a falta de governança comunitária. Dar poder ao povo de pensar, criar e tomar decisão sobre o seu território é o primeiro passo para fazer diferente de tudo aquilo que já vimos por aqui.


Outro fator que contribui para a descontinuidade dos projetos é a falta de visão de longo prazo que a gestão pública tem. A pressa pela entrega nos quatro anos, que ultimamente tem sido reduzida a dois anos - levando em consideração as mudanças de governos municipais e estaduais mais recentes - fazem com que os técnicos não tenham tempo suficiente para garantir a participação social efetiva e os projetos não ganhem maturidade suficiente para sua autogestão.


Mas acredito que revisitar esses projetos e fazer um resgate de suas memórias, ouvindo os moradores ou os seus registros, é o primeiro passo para abrirmos essa "caixa preta" do urbanismo popular brazuca que por diversas tentativas, insiste e resiste para levar dignidade e cidadania à quem mais precisa.

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